"Papai bobinho"

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Aqueles que possuem filhos pequenos talvez já tenham ouvido a frase "papai bobinho". Pertence à Peppa, a porquinha de um desenho animado destinado ao público infantil. Já assisti com minhas filhas (faz sucesso entre os pequenos). Peppa, a personagem principal, vive chamando seu pai de "papai bobinho".

Em meio a poucas polemicas sobre a forma como Peppa trata o próprio pai, alguns suavizam o fato, defendendo que se trata apenas de um componente cultural britânico, pois no Reino Unido é comum dizer aos amigos e até aos pais “Silly you!” sem que isso seja entendido como um desrespeito.

Em um dos poucos episódios que vi, os personagens passaram o desenho inteiro procurando os óculos do Papai Pig. Quando encontraram, ele mesmo estava sentado em cima deles. Em outro, Peppa faz graça com o barrigão do papai mesmo o pai dizendo que não gosta que falem de sua barriga, mas a brincadeira continua, com a mamãe também dando risada. Ao contrário dos defensores, a mim pareceu desrespeitoso. Os produtores não criaram um "papai bobinho", mas um “papai bobão”.

Há uma crise do modelo paterno. É fácil de se perceber o constante desmanchar da autoridade paterna em novelas, filmes, desenhos, etc. A ideia contemporânea de pais (homens) é de ausência, além disso, não servem como referência. Filhos dando broncas homéricas em pais que parecem figuras patéticas.

O referencial bíblico paterno vai na contramão. No Antigo Testamento, a função de educar os filhos também cabia ao homem. As marcas dos pais ficavam nos filhos. Jacó falava do Deus de seu pai e do seu avô (Gn 31.42). Deus se apresentou a ele como o Deus de seu pai e de seu avô (Gn 28.13). O pai era o referencial. Em Deuteronômio, o pai ensinava ao filho quando estivessem no campo.

Mas em nossa cultura, o domínio do homem é o da rua, trabalho e negócios. Muitos homens entregam a total educação dos filhos às esposas. Há um pensamento equivocado em que os pais (homens) têm tarefa mais importante: o sustento, e tão somente o sustento. Mas a figura masculina é indispensável à criança. Ela precisa de um pai. O homem ensina ao filho o tipo de homem que ele deve ser, e ensina à filha o tipo de homem que ela deve procurar para se casar. Ou seja: o pai deve ser um modelo para os filhos, do contrário, é problemático.

Há um texto, escrito pelo saudoso Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, ensinando que um bom modelo de pai foi Simão Cireneu (Mc 15.21). Foi ele quem carregou a cruz de Jesus à força. Era nativo de Cirene (África). É chamado de Simão Níger (At 13.1), literalmente, Simão, o Negro. Tornou-se um dos pastores da igreja. Tinha dois filhos, Alexandre e Rufo. Paulo falou de Rufo e de sua mãe, a esposa de Simão: “Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha” (Rm 16.13). A esposa de Simão foi uma mãe para Paulo.

Simão carregou a cruz por obrigação, depois tomou para si. Passou a cruz para a esposa e filhos. Um dos filhos era pastor e uma esposa que era mãe adotiva de missionários. Eis um pai que passou seus valores espirituais a toda família. Há pais que carregam a cruz sem alegria. Sua fé não é contagiante. A de Simão era. Um pai que passa valores aos filhos mostra a alegria de tomar a cruz e seguir a Jesus. Transmitem valores e marcam as vidas dos filhos.

Poucas coisas são tão belas como um pai chegando à igreja, com os filhos, e com a Bíblia na mão. Há coisa mais valiosa para um pai que seus filhos se orgulharem dele?

Papais, Deus nos confiou filhos. Eles precisam de pais. Brincalhões, mas sérios, responsáveis, respeitáveis, presentes, educadores, amorosos e fiéis a Deus. Precisamos nos lembrar que somos os sacerdotes dos filhos. Além de orar por eles, devemos instruí-los moral e espiritualmente.

Lembro-me da pregação que ouvimos no mês da família em nossa igreja (maio\2019): “O que de melhor um pai pode fazer pelos seus filhos é amar a mãe deles”. Assumir a liderança moral e espiritual do lar. Não pela força. Pelo amor. Amor à esposa. Amor aos filhos. Amor a Deus.

Que sejamos papais como Simão Cireneu, não "papais bobinhos".