Um pouco da história dos batistas

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A denominação batista está presente em todo o mundo, com cerca de cem milhões de membros, em mais de trezentas mil comunidades locais, chamadas “igrejas batistas”. Somos uma denominação organizada, bem estruturada, com uma visão teológica não fragmentária, e numa perspectiva correta, em que a parte se subordina ao todo. Nossa história é rica e é nobre. Não surgimos ao redor de uma briga por dinheiro ou de uma disputa por liderança. Surgimos ao redor de princípios. Poucos grupos têm uma história tão inspiradora e decente como a nossa. Nunca pescamos em aquário. Nunca predamos igrejas de outras denominações. Nunca entramos sorrateiramente numa igreja e fomos mudando a doutrina devagarinho, até darmos o golpe e mudarmos tudo para nosso grupo. Nunca lesamos ninguém. Sofremos com atitudes assim, mas não as praticamos.

Na história do movimento evangélico, os batistas têm oferecido alguns dos maiores missionários, alguns dos maiores evangelistas e alguns dos maiores teólogos. Temos currículo, e não Boletim de Ocorrência. Somos gente decente. Mas temos alguns pontos que sempre são discutidos, o que mostra nossa pujança e a espontaneidade do movimento batista. Um desses pontos é este: quando surgiram os batistas?

 


A origem dos batistas no cenário mundial pode ser enfocada por três ângulos.

 

  • Pelo ângulo da teoria da sucessão histórica, há a teoria JJJ, Jerusalém, João e Jordão. A idéia é que os batistas começaram a existir no rio Jordão, com João Batista, quando este batizou Jesus. Historiadores como Orchard, Cramp e Cathcart a defendam e ela tem muitos seguidores. Esta teoria tenta ligar os batistas com João Batista e Jesus e traça uma linhagem espiritual e teológica daqueles tempos até o surgimento da primeira igreja batista no mundo.
  • Pelo ângulo puramente espiritual, os batistas descenderiam dos anabatistas, como os anabatistas alemães, holandeses, suíços e seitas como novacianos, donatistas e outros. A sucessão não seria histórica, mas espiritual.
  • Pelo ângulo da teoria histórica, os batistas surgiram entre os dissidentes ingleses, que defendiam o governo congregacional e o batismo apenas de adultos, convertidos. Mesmo este ângulo apresenta linhas diferentes. Historicamente, e segundo uma das linhas, seria em 1609, na Holanda, quando John Smyth, Thomas Helwys e uma congregação de 40 pessoas ali se instalaram, fugindo da perseguição da Igreja anglicana. Outra linha, defendida pelo grande teólogo Strong, liga-os a um grupo que, em 1641, na Inglaterra, começou a batizar por imersão, na igreja de Southwark. Strong defende esta posição porque os primeiros batistas, os que deram origem à primeira igreja com este nome, o grupo de Smyth e Helwys, batizavam por afusão. Na realidade, os batistas só adotaram a imersão depois de seu contato com os menonitas, não sendo imersionistas no início. Daí a idéia de Strong. Ele se preocupa mais com a linha teológica que com a histórica linear. É seu ponto de vista, que entendo, embora não me pareça o mais correto.


Desde 1609 começaram a surgir várias comunidades chamadas batistas, e podemos identificar um período de estratificação doutrinária dessas igrejas até 1641, quando se cristalizou o movimento batista como nós o temos, com doutrinas e práticas como as que temos hoje, em grande parte. Muitos outros aspectos doutrinários surgiram e muitas querelas teológicas por narcisismo e estrelismo surgiram, mas em linhas gerais, os batistas mantiveram as doutrinas que hoje sustentam. As particularidades e esquisitices ficam mais por conta de líderes locais em determinadas épocas que à visão geral dos batistas.


É pouco provável que a primeira linha seja assumida sem problemas de interpretação bem sérios. Tentar ligar os batistas a João Batista, rio Jordão e Jesus me parece bastante temerário. Sobre a segunda linha, pode-se dizer que temos pontos de contato com os anabatistas, mas muitas discordâncias como sua recusa em aceitar o estado civil, vendo-o como demoníaco, bem como a recusa a aceitar benefícios de progresso, como alguns grupos fizeram. O isolamento social, formando comunidades isoladas do mundo, nunca foi nossa postura. Os batistas nunca formaram comunidades messiânicas. Particularmente, entendo que os batistas começaram a existir em 1609, na Holanda, com a igreja de dois ingleses, chamados Thomas Helwys e John Smyth. Smyth tornou-se anabatista em 1609, batizou-se a si mesmo, a Thomas Helwys, e mais 40 pessoas. Desligaram-se dos anabatistas e originaram a primeira igreja chamada “batista”, no mundo.

Definamos bem, então: historicamente, este grupo tem sido entendido como a primeira igreja batista do mundo. Surgiu em 1609, na Holanda. Smyth deixou sua igreja e tornou-se menonita, mas Helwys continou com o grupo, e em 1612 regressaram à Inglaterra. Parece que Smyth era bastante complicado, tendo passado por vários grupos de dissidentes. Mas entende-se que era a busca da igreja que mais se adequasse ao Novo Testamento, num momento histórico muito confuso. Mesmo assim, o pretexto para uma das divisões criadas por Smyth foi ridículo: não aceitava que o pregador usasse manuscrito algum na pregação. Sem dúvida, um autêntico batista, criando caso por ninharia. Mas era persistente, sincero e buscava sempre o melhor e o certo. E foi o primeiro pastor batista da história.


Mas creio que encerro tudo ao fazer uma citação do sempre competente Zaqueu Moreira de Oliveira, em seu livro “Liberdade e exclusivismo – ensaios sobre os batistas ingleses”. O Dr. Zaqueu assim se pronuncia, falando sobre o ambiente do século17: “Neste ambiente foi que surgiu a primeira igreja batista cujo pastor foi João Smyth, que tinha formação teológica em Cambridge. Ele controu com um auxiliar muito importante, que era leigo e também advogado, Tomás Helwys. Eles, que antes eram anglicanos, tornaram-se seguidamente puritanos, separatistas e finalmente batistas. Quando aderiram à posição separatista, no reino de Tiago I, decidiram fugir com todos os homens da Igreja para a Holanda, onde havia tolerância religiosa. Lá encontraram outros grupos evangélicos, inclusive o dos menonitas que, conforme referido anteriormente, provinham do movimento anabatista do Século 16. Contudo, deles diferiam em vários aspectos, inclusive teológicos, pelo que ao se convencerem de que o batismo correto é o de crentes, rejeitando o batismo infantil, formaram uma igreja própria, sempre no ideal de restituir a igreja neotestamentária em toda a sua inteireza. Assim nasceu a primeira igreja batista” (pp. 29-30, respeitando a grafia de Zaqueu).


Muita gente, marcada por um livro que fez sucesso entre nós, intitulado O rastro de sangue, defende a teoria JJJ. Neste livro. O Dr. Carrol traça uma linha entre os personagens do Novo Testamento, desde o batismo de João, até nós. É uma visão romântica e bastante agradável, mas força a situação. Não é história, mas romance. Não podemos tentar dourar a história para tornar nosso passado mais remoto. Respeitosamente, isto não me parece honestidade intelectual, porque em alguns momentos se torna necessário enfeitar ou até mudar alguns acontecimentos. Nós não precisamos disso. A autenticidade da doutrina batista não depende de uma tentativa de identificação com João Batista ou com a igreja de Jerusalém, que sequer possuía rótulo, e se via como um movimento messiânico dentro do judaísmo. Nem tampouco com uma hipotética relação histórica com grupos dissidentes do catolicismo, que defendiam algumas de nossas posições, mas assumiram outras que nós não assumimos. Depende de sua confrontação com o Novo Testamento. Disse, certa vez, o Pr. Irland Pereira de Azevedo que, numa viagem de avião, vindo Europa, conversando com um cônego católico que fizera seu doutorado em História Eclesiástica, em Roma, este lhe disse que tendo examinado os vários grupos evangélicos viu que os batistas eram os mais próximos ao Novo Testamento. Um belo testemunho de fora. A questão não é uma sucessão histórica, mas uma linha doutrinária correta, ajustada com o Novo Testamento.


Podemos colocar isto em outras palavras: quando Thomas Jeferson fundou o Partido Democrata, nos Estados Unidos, ele não criou a democracia, mas apenas organizou um partido em que as pessoas que tinham aquelas convicções políticas pudessem se congregar. Da mesma forma, quando surgiu a primeira igreja batista no mundo, não se criou a doutrina batista, mas organizou-se uma igreja que permitiu que as pessoas que tivessem convicções batistas se reunissem. A questão é o conteúdo.


Mas voltemos a Smyth e Helwys. Eles nos legaram quatro documentos, que são os mais antigos documentos batistas:


1 - Vinte artigos escritos em latim, por Smyth. Versa sobre temas teológicos, mostrando a preocupação com a verdade doutrinária.


2 - A tradução para o inglês de uma confissão de fé escrita em holandês, e subscrita por Smyth e Helwys. Não sei afirmar se eles a traduziram ou se alguém a traduziu e eles a subscreveram. Mas isto prova que aquele foi um período de fermentação teológica, com a busca de uma doutrina correta na igreja, após tantos séculos de erro, com o catolicismo e seus desvios.


3 - Uma confissão de fé escrita por Helwys, com 19 artigos.


4 - Uma confissão de fé, com cem afirmações, intitulada “O último livro de Smyth ou retratação dos seus erros”. Não me ficou claro se este livro foi escrito por ele quando deixou de ser anabatista e se tornou batista, ou se após se tornar menonita, deixando de ser batista, ele retrocedeu, quis voltar a ser batista, e escreveu este livro.


Mas uma coisa é certa: os primeiros batistas eram homens sérios, muito preocupados com a verdade bíblica e com a correção doutrinária. Devemos muito a eles porque eles abriram o caminho, começando do nada. Os itens 3 e 4, por exemplo, são os mais antigos documentos batistas da história. Desde o início os batistas estavam registrando suas posições, escrevendo para orientar e deixando claro quem são e o que crêem.


Fonte: http://www.isaltino.com.br/2009/11/um-pouco-da-historia-dos-batistas/